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Ariano Suassuna, sertanejo e clássico

João Grilo vendeu para a mulher do padeiro, infiel e avarenta, “um gato maravilhoso, que descome dinheiro". Depois, munido de uma gaita que fecha o corpo e ressuscita os mortos (“benzida pelo Padre Cícero, pouco antes de morrer”) convence o cangaceiro ameaçador a visitar o Padim, já falecido: "Seu cabra lhe dá um tiro de rifle, você vai visitá-lo. Então eu toco na gaita e você volta". E o cangaceiro cai nessa... João Grilo também manifesta um senso de justiça agudo ao ser julgado pelo Diabo: "Sai daí, pai da mentira! Sempre ouvi dizer que para se condenar uma pessoa ela tem de ser ouvida!"

João Grilo não é senão a imagem do sertanejo esperto, astuto, mestre nas artimanhas da sobrevivência. Personagem central de uma das principais obras de Ariano Suassuna, o Auto da Compadecida (1955) que, por si, justifica todas as homenagens ao grande escritor cujos escritos manifestam os traços marcantes daquilo que constitui um clássico: o popular e o erudito andam de mãos dadas numa obra em que o caráter “culto” nada mais é do que a expressão da alma brasileira em formato artístico.

Expressão culta registrada num sem número de personagens e peripécias que parecem saltar direto da literatura de cordel e de cantadores das feiras do sertão para páginas e palcos, passando a figurar num patamar mais permanente na literatura.

Capa da 9ª edição, de 2007.
É o caso, por exemplo, de outro personagem, Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna, do Romance d’A Pedra do Reino (1971), mais um pícaro de visível formação sertaneja cujas aventuras retratam o clima das tramas e também do sentimento sertanejos, com seu sebastianismo à flor da pele e suas reminiscências dos tempos do imperador e das revoltas do sertão.

É um lugar comum dizer-se que o Nordeste é a última fronteira da Idade Média ibérica. É preciso acrescentar, contudo, que ao longo do tempo o iberismo foi temperado, e diluído, na herança tupi e africana, o catolicismo foi amolecido por orixás e entidades pagãs, o mistério dos céus trazido à Terra tingido pelas cores das lutas do homem do sertão.

Este festival de cores, sentimentos e tradições vai agora ser proposto para avaliação à Academia Sueca que, todo ano, unge o escritor que passa a ser cultuado em todo o planeta. Em português isto ocorreu apenas uma vez, em 1998, quando José Saramago foi agraciado pelo Nobel de literatura.

O cavaleiro diabólico que apareceu a Lino Pedra-Verde
Uma das ilustrações do Romance d'APedra do Reino,
 feitas por Ariano Suassuna.
Este ano, Ariano Suassuna vai estar no páreo: a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado vai avaliar requerimento do senador Cássio Cunha indicando seu nome para o Nobel de Literatura, com relatoria do senador Inácio Arruda (PCdoB-CE). Sua obra - esta é a justificação - traduz tipos e o espírito brasileiros, transpondo limitações de tempo, lugar e de gerações. Não podia ser diferente!

Algumas obras de Ariano Suassuna

Teatro
Uma Mulher Vestida de Sol (1947)
Cantam as Harpas de Sião (ou O Desertor de Princesa) (1948)
Auto de João da Cruz (1950)
O Castigo da Soberba (1953)
Auto da Compadecida (1955)
O Casamento Suspeitoso (1957)
O Santo e a Porca, imitação nordestina de Plauto (1957)
A Pena e a Lei (1959)
Farsa da Boa Preguiça (1960)
As Conchambranças de Quaderna, 1987

Ficção
A história do amor de Fernando e Isaura. Romance inédito (1956)
Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971)
História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana (1977)

Outras obras
O Pasto Incendiado (1945-70). Livro inédito de poemas.
Ode (1955)
Coletânea da Poesia Popular Nordestina (1964)
O Movimento Armorial (1974)
Seleta em Prosa e Verso (1974)
Iniciação à Estética (1975)
A Onça Castanha e a Ilha Brasil: Uma Reflexão sobre a Cultura Brasileira (tese de livre-docência, UFPe) (1976)
Sonetos com Mote Alheio (1980)
Poemas (1999)

Por José Carlos Ruy
Fonte: Portal Vermelho.(Acesso em 17/05/2012)

Antologia do cordel brasileiro - Lançamento

Um passeio pelo cordel através dos tempos

Clique na imagem para ampliar

          Marco Haurélio é poeta, professor, pesquisador da cultura popular brasileira, editor e baiano. Na Antologia do Cordel Brasileiro (Rio de Janeiro, Global, 2012), ele reuniu textos de cordelistas de diferentes gerações, percorrendo mais de um século da história desse gênero - desde Leandro Gomes de Barros (1865-1918), considerado por muitos o pioneiro, até autores da atualidade como Pedro Monteiro,  Rouxinol do Rinaré e Arievaldo Viana.
          Contos inspirados no maravilhoso, em mitos da Grécia Antiga ou nas histórias de animais ganham forma e cor nas xilogravuras do carioca Erivaldo. 
          A obra promete prazer para leigos e novidades para especialistas.


15/03/2012 

Vinde! Vinde, apreciar!



A Caravana do Cordel é um projeto coletivo, construído por poetas populares nordestinos radicados em São Paulo. É um mundo de cordel para todo o mundo!
Viajam na caravana cordelistas, repentistas, xilógrafos, músicos, pesquisadores e entusiastas da poesia popular. Em seus encontros há lançamentos de livros, feira de literatura de cordel, exposição de capas e folhetos de cordel, recital de poesia tradicional nordestina, exposição de xilogravura, música e cantoria.

(05/12/2011)

Graciliano Ramos por Antonio Candido


Antonio Candido é o decano dos críticos brasileiros de literatura. Quando se assiste à sua palestra (dia 20 de setembro) sobre Graciliano Ramos, na abertura da série de conferências promovida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP sobre os 75 anos de Angústia, fica fácil saber por quê. Nela, o professor alia profundo conhecimento à simplicidade de quem fala de um amigo. E o resultado é surpreendente, como se pode conferir no vídeo que reproduzimos aqui
(07/10/2011)


Septuagenário e atual


Uma das maiores obras da literatura brasileira moderna completou 75 anos de publicação: o romance “Angústia”, de Graciliano Ramos, lançado em agosto de 1936. É a história de Luís da Silva, um pequeno funcionário público às voltas com uma vida cinzenta e sem graça e com uma história de amor fracassada.
Foi um romance inovador, pioneiro no uso do monólogo interior que fragmenta e embaralha o tempo, onde o fluxo do pensamento reproduz a maneira como a mente trata os acontecimentos reais e os problemas da vida.
Juntamente com “Vidas Secas”, é considerado a obra prima de Graciliano e, já septuagenário, sua leitura mantém frescor, significado e atualidade.
(24/09/2011)